Expectativas melhores para a siderurgia em 2012 não garantem
retomada significativa
O ano que se encerrou foi mais um em que o setor siderúrgico
no país não deixou para trás a crise iniciada em 2008. Dados
divulgados pelo Instituto Aço Brasil no final do ano,
demonstram a continuidade desse cenário em 2012, marcado
principalmente pelos efeitos da concorrência dos produtos
importados em toda a cadeia econômica relacionada ao aço
plano. Uma conta que traduz bem as expectativas pouco
animadoras da expansão da indústria brasileira e da
possibilidade de voltar a atender o mercado internacional de
maneira crescente é o ritmo dos investimentos previstos
pelas companhias neste década.
De acordo com o Instituto Aço Brasil, no cenário que
classifica como de incertezas, os investimentos estão sendo
revistos em termos de prazos de implementação. Isso
significa que, apesar do setor ter uma previsão de capex
superior a US$ 5 bilhões por ano, o efetivo início da
implantação de novos projetos deve levar em conta as
condições competitivas do mercado brasileiro. Como
comparação, o montante anual está abaixo da média aplicada
durante o período pós-privatização, em que foram investidos
US$ 34,1 bilhões (1994 a 2010).
Para o analista da Banrisul Corretora, Fábio Gonçalves, uma
boa palavra para o setor em 2012 seria “investimento”. O
analista justifica que a Siderúrgica Nacional (CSN)
e a Gerdau, favorecida pela oferta pública (recompra de
ações) realizada em 2011 que alavancou o seu caixa, prevêem
grandes investimentos para desenvolver a capacidade
produtiva e fazer frente a demandas futuras de aço. “A
Usiminas ainda apresenta nebulosidade quanto a política de
investimentos, frente a entrada do grupo Techint no bloco de
controladores da companhia”, observa Gonçalves.
No entanto, perspectivas divulgadas pelo Instituto Aço
Brasil são marcadas pela força de algumas características
quanto à competitividade do mercado interno que reforçam o
efeito da concorrência dos importados. Durante evento
realizado no final do ano, o presidente da entidade, Marco
Pólo de Mello Lopes, resumiu o quadro que deve ser evidente
para o futuro do setor: “o mundo pós-crise é muito mais
complexo e competitivo, o que torna ainda mais importante
preservar o mercado interno com a correção das assimetrias
competitiva e tributárias”.
As condições assimétricas referidas por Lopes se traduziram
em um aumento da participação dos importados no mercado
brasileiro. No entanto, ela foi arrefecendo ao longo do ano.
O que, de alguma forma, sinaliza expectativas melhores para
2012, apesar de discretas. O Instituto calcula que o consumo
aparente de produtos siderúrgicos no Brasil cresça 7,1%,
atingindo em 26,7 milhões de toneladas. O crescimento deve
ser duas vezes superior ao previsto para a economia
brasileira e é importante, já que em 2011, o consumo
aparente foi inferior em 4,3% a doze meses, totalizando 25
milhões de toneladas ao ano. Ainda no ano passado, as vendas
internas foram 3,8% maiores, totalizando 21,5 milhões, mas
ainda não haviam alcançado o patamar pré-crise de 2008.
Mesmo assim, o analista da Concórdia Corretora, Leonardo
Zanfelício, é mais otimista para 2012. Ele acredita que o
ano se inicia já um pouco melhor que 2011, principalmente
para aços longos. Ele observa que os dados da indústria
referentes ao mês de dezembro já demonstram uma melhora. No
último mês do ano, a participação de importados no segmento
de longos estava em 9%, seis pontos percentuais inferiores
em relação ao topo do ano. “No mercado de planos também
houve melhora, mas ela precisa ser mais evidente,
especialmente, se o real continuar se valorizando, como se
observou neste mês de janeiro”, analisa. No mês de dezembro,
a participação de importados na conta das vendas de aços
planos no país era de 30% frente ao pico de 35,7% que teve
no ano. No entanto, esse patamar já foi de 19,7%.
Para o analista, o cenário pode ser melhor neste ano devido
a medidas contra os efeitos dos importados postas em prática
pelo Governo Federal em 2011. A tabela de preços mínimos,
imposta ainda em 2010, o aumento do IPI para automóveis
importados são alguns exemplos. De outro modo, o que ainda
não deve melhorar é o patamar dos preços praticados pelas
brasileiras. “A chances para reajuste é baixa”, frisou
Zanfelício.
Relatório distribuído pela Ativa na metade do mês de
janeiro, demonstra que esse movimento pode já ter começado,
pelo menos na cadeia menos prejudicada do setor, ligada aos
aços longos. Segundo a empresa especializada em informações
sobre o setor, a Steel Business Briefing (SBB), a Gerdau
estaria estabelecendo aumento entre 5% e 7% nos preços dos
aços longos para os seus clientes brasileiros. O reajuste
deveria valer já a partir deste mês, e teve como motivador o
aumento de preço do vergalhão na Turquia e da sucata.
Ao contrário dessa boa notícia, a Corretora Ativa divulgou
outra ainda no mês de dezembro. Segundo a mesma consultoria
SBB, centros de serviços e fornecedores ao segmento
automotivos, as produtoras de aços planos CSN, Usiminas e
ArcelorMittal, pelo contrário, estariam concedendo descontos
de 4% a 10% em seus produtos planos desde o começo de
Novembro do ano passado. A tentativa era de reduzir os seus
altos estoques, elevar as vendas e assim evitar cortes na
produção. As fontes de mercado consultadas pela SBB
acreditavam que os descontos devem permanecer até o próximo
trimestre, para que usinas ajustem estoques e produção. De
acordo com a corretora, essa prática só confirma a fraqueza
da demanda do mercado siderúrgico brasileiro, que,
considerando a apreciação do dólar que houve no final do ano
passado, resultava em um aço vendido pelas brasileiras
próximo dos patamares internacionais.
Diante disso e mesmo frente a melhora nos números da
indústria no final de 2011, a visão da Corretora Ativa, que
divulgou um relatório com estratégias de investimento para
2012 no dia 17 de janeiro, não é positiva . Após um ano
bastante conturbado no cenário externo, em função
principalmente da desaceleração da economia global, o ano
que começa é considerado de poucas expectativas de alguma
melhora sensível nesse aspecto, especialmente, que possam
alterar a trajetória de queda dos preços das ações que pôde
ser observada no setor no ano passado, que caiu 38,1% na
BM&FBOVESPA, bem acima dos 18,1% do Ibovespa. A pouca
efetividade das medidas européias para tentar solucionar a
situação econômica é apontada como um importante fator ao
cenário setorial também brasileiro.
Já o analista Leonardo Zanfelício, da Corretora Concórdia,
espera que a Gerdau apresente resultados bem melhores. Mas
que CSN e Usiminas, que atuam no segmento de planos também
apresentem evolução. Isso deve ser possível especialmente
devido a esforços de eficiência, que não vem de agora. Fábio
Gonçalves, analista da Banrisul Corretora, também aponta
como ponto positivo os esforços dessas companhias em
diminuir seus custos operacionais e administrativos,
buscando serem auto-suficientes na produção do minério de
ferro e carvão e ampliando seu mix de produtos. “Esses
fatores nos deixam otimistas para o setor no longo prazo,
principalmente pela diminuição da exposição à oscilação dos
preços do minério de ferro e carvão e da melhora de sua
eficiência operacional”, justifica o analista.
Por isso e pelo potencial do setor de longo prazo no Brasil,
com a realização de eventos esportivos e as necessidades de
infraestrutura, a recomendação da Concórdia é de COMPRA para
os três papeis (com preços-alvo de R$23,46 para a CSN;
R$24,65 para Gerdau e R$14,83 para a Usiminas. O analista da
Banrisul Corretora vê possibilidade ainda de evolução do
setor em bolsa acima do Ibovespa. No entanto, o primeiro
semestre deve ser marcado por grande volatilidade. “O fraco
crescimento mundial e as incertezas frente a demanda devem
ocasionar forte oscilação nos preços das ações em bolsa”.